Untitled
Não queres que te fale, não me queres ver, não queres olhar os meus olhos. Tento calar mas o pensamento não para. Presente, passado, futuro… tudo às voltas dentro de mim, num turbilhão que não se acalma… Escrevo, palavras que nunca lerás… em páginas que nunca verás… repetindo palavras escritas e nunca ditas, sem nada de novo, sempre o mesmo…
E, no entanto, há coisas que não consigo deixar apenas nessas páginas… mesmo sendo palavras repetidas do que já tantas vezes escrevi. Tenho que deixar aqui.
—
Não conseguia confiar em ti, acho que não conseguia confiar em ninguém. Vinha de uma relação falhada, com alguém que tinha deixado o namorado para estar comigo. E que me deixou para voltar para o namorado. E tu tinhas namorado quando te vi, quando me apaixonei por ti estiveste meses com o teu namorado a ter conversas de namorados comigo. Por outro lado essa inconstância do teu sentir… um dia amas, um dia queres, um dia depois, uma semana depois não amas, não queres. Eu estava a terminar um ciclo profissional, a instabilidade da tua profissão, não sabia onde irias parar, onde eu iria parar. Ao meu lado tinha visto alguém ficar na merda porque a pessoa com quem estava tinha sido colocada longe e na distância encontrou alguém e acabou a relação. E eu só pensava que era o que aconteceria contigo e comigo, que estarias meses ainda comigo a sonhar com outro ou até nos braços de outro (porque tu eras e és tão mais especial do que eu sou, linda), facilmente encontrarias alguém melhor do que eu era, fui ou alguma vez serei. E acabaria sempre por acontecer, nunca ficaríamos juntos, o teu sentimento por mim não era, nunca foi suficiente. E eu queria tanto ser suficiente, queria que lutassem por mim como tinha lutado por ti, que me procurassem, como eu te procurei, queria estar com alguém para quem fosse suficiente, ser suficiente para ti.
Tudo isto não justifica nada do que te fiz, ter-te deixado e ter casado com outra pessoa com quem tive filhos, mas apenas o escrevo para que compreendas um pouco o que se passava comigo. O que sentia por ti, a relação contigo, nela sentia como nunca tinha sentido, e isso assustava-me, assustou-me, fez-me fugir, pelo medo que tinha dentro de mim.
E há coisas que não mudaram, mesmo 20 anos depois, quando vivendo o verdadeiro amor, tiveste comigo conversas que só se tem com alguém que se ama.
E a inconstância emocional… (ou não… talvez tenhas mudado… talvez seja apenas gozo… como muitas vezes acredito que seja, não sei, não consigo perceber, não encontro explicação). Ainda há uma semana ficarias para sempre no meu abraço, dias depois estás de férias, com o teu marido, nos locais que foram nossos, na praia que foi nossa.
Não sei, não percebo nada. Tudo é confusão...
Não tivemos um final feliz, dizes… eu não tive. Tu tiveste, tens…
(Tens muita sorte em ter encontrado o homem da tua vida. A tua sorte foi o meu azar, a minha infelicidade, a minha sorte teria sido o teu azar porque comigo não o terias possivelmente encontrado, não terias o teu final feliz.)
…
Não há ódio em lado nenhum. Há muita dor, tristeza, amargura, escuridão, mágoa, vazio, um desespero sem fim…
Não te quero magoar, nunca... antes pelo contrário, quero cuidar de ti...nunca as minhas palavras tiveram o objectivo de te magoar. Possivelmente escrevo coisas que te possam magoar mas que apenas são o resultado da confusão da minha cabeça.
Acredito, ou quero acreditar, que nos teus momentos de fraqueza, como lhes chamas, entendes o que sinto, infelizmente apenas por momentos, apenas por instantes…
Talvez não...
Acredito no Amor, acredito que o verdadeiro amor apenas pode existir na união de duas almas, que é único e eterno. Só se ama verdadeiramente um alguém. Tu és esse alguém para mim, esse amor eterno. E tenho essa certeza porque já não sou uma criança, estou velho, os dias estão-se a acabar (e sinto a vida a escapar-se rapidamente entre os meus dedos…), tenho certezas que nunca tive, que o passar do tempo, a vida, me trouxe.
Tenho medo de morrer sem ti. Quem me dera poder trocar o resto da minha vida por um verdadeiro abraço teu, despedir-me deste mundo e de ti, agora. Penso que ainda tenho mais medo de viver sem ti, se valerá a pena apenas sobreviver nos dias que passam, na escuridão, para sempre partido.
Entendes o desespero que sinto?
O desespero de sentir o tempo passar, a vida a escapar-se entre os dedos, rumo a um fim, sempre sem ti, sem nós nessa vida?
Acho que não podes entender… talvez o entendesses se não tivesses tido o tal final feliz com o homem que amas…
Amo-te minha flor, única no mundo. (Porque me cativaste, meu amor?)
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